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BALAIO LITERÁRIO


MINI-CONTO

Naquele sábado de muito sol, os pássaros deixaram a floresta e vieram se divertir na cidade. Pousaram nos fios do primeiro semáforo da avenida principal e ficaram espiando o tráfego.

-         Como os homens são apressados! – observou o primeiro pássaro.

-         Imagina se pudessem voar! – comentou um outro pássaro.

-         Fico aqui pensando: e no dia em que não houver mais florestas, hem? – filosofou um deles.

-         Teremos que ir ao supermercado para fazer compras. – concluiu o primeiro pássaro.

-         E como preservaremos a nossa memória?

-         Tiraremos fotografia e faremos filme e televisão... É assim que o homem faz.

-         Mas pássaro é pássaro e homem é homem – afirmou um dos pássaros.

-         Será que o pássaro de hoje será o homem de amanhã? – indagou um outro pássaro.

-         Deus nos livre de tal sina! Preferia o contrário: que o homem de hoje possa ser o pássaro de amanhã...

-         Aí não haveria mais gaiolas e não seríamos mais aprisionados... – ponderou um dos pássaros.

-         E também os homens aprenderiam a voar de verdade... – completou um outro.

-         Seriam mais breves, suaves e leves...

-         Aprenderiam a cantar os hinos da floresta...

-         Será que o mundo seria mesmo melhor? – indagou o primeiro pássaro.

E, com todas essas dúvidas em suas cabecinhas de plumas furta-cor, alçaram vôo na direção da linha do horizonte, desenhando arabescos no céu...



Escrito por José de Castro às 17h36
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POEMA

O ETERNO

 

O amanhã é tecido

nas malhas finas do presente.

 

Emenda-se a cada instante,

linha por linha, nas agulhas fugazes do momento.

 

Mas escapa o detalhe que escorre

célere por entre os dedos, qual areia.

 

O momento é cortina de fumaça

anuviando o contemplar.

 

É preciso ter olhos de ver o eterno

a desabrochar lentamente nas miúdas acontecências do agora.

 

(José de Castro, inédito)  

Escrito por José de Castro às 19h34
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POEMA

LEI

 

O que é preciso é entender a solidão!

O que é preciso é aceitar, mesmo, a onda amarga que leva os mortos.

O que é preciso é esperar pela estrela

que ainda não está completa.

O que é preciso é que os olhos sejam cristal sem névoa,

e os lábios de ouro puro.

O que é preciso é que a alma vã e venha,

e ouça a notícia do tempo,

e, entre os assombros da vida e da morte,

estenda suas diáfanas asas,

isentas por igual,

de desejo e de desespero.

 

(Cecília Meireles)

Escrito por José de Castro às 19h14
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POEMA DO TREM AZUL

LEMBRANÇAS DE INFÂNCIA

 

Lá vai o trem azul

riscando o trilho

em eterna cantilena,

soprando o estribilho:

Tchuc-tchuc-tchuc...

 

Lá vai o trem azul

espichando o seu grito,

desafiando a estrada,

a trilha e a curva:

Piuiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...

 

Lá vai o trem azul

bordando de fumaça o horizonte,

resfolegando a saudade,

e colorindo as minhas lembrinfâncias:

Tchuc-tchuc-tchuc... Piuííííííííííííííííííííí...

 

(José de Castro, Outubro/2004, inédito)

Escrito por José de Castro às 19h23
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REVISTA DE INTERCÂMBIO CULTURAL BRASIL X HOLANDA

PAPAGAIO

 

Hoje recebi a revista bilíngüe (Português-Holandês) PAPAGAIO número 67, referente aos meses de outubro de novembro de 2004, cuja editora é a minha amiga Kinha Costa, autora do livro já comentado aqui no Balaio Literário (Impressões de uma Matuta: aventuras brasileiras nos Países Baixos. Ilustrações de Carlos Duba.  Rio de Janeiro: Letra Capital, 2003)

 

Este número da PAPAGAIO traz como matéria de capa a história de uma brasileira que encontrou o seu amor na rede (Internet) e outros casos de casamentos entre brasileiros e holandeses que se conheceram através dessa estratégia virtual. 

 

Entre outros artigos traz também um comentário sobre as possíveis mudanças da lei de imigração que está sendo cogitada por aquelas bandas, o que deverá dificultar o processo de obtenção de nacionalidade para os estrangeiros.

 

Traz também um artigo sobre um programa infantil que foi lançado por Zé Zuca (animador cultural que foi o fundador da revista Papagaio) na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, um programa de auditório que permite muita interatividade do público através dessa mídia que já foi, no passado, uma das mais importantes no cenário cultural, musical e jornalístico do país através dessa mesma e histórica emissora radiofônica.

 

Finalmente quero destacar o comentário que a revista faz sobre a receptividade que o livro da Kinha Costa (Impressões de uma Matuta) vem tendo, o qual foi prefaciado pela atriz de TV e autora de livros infantis Elisa Lucinda, de quem transcrevo um trecho de poema que foi publicado nessa edição da Papagaio.

 

MEDO

 

“Um finíssimo fio esticado/sobre um abismo/onde haveremos de bailar/Enquanto isso fui pegando/seus olhos de antigo varão/E espalhando pelo meu corpo/Como se fosse sol/Como quem não acha um não/Os dias se repetem luxuosos/reverberados no vídeo/de nós dois...”

 

(Elisa Lucinda, in Papagaio nº 67, out.-nov. 2004) 

Finalmente, quero dizer que a Kinha Costa me confirmou que estará em Natal no final do ano, para passar o Natal com seu pai, que faz 90 anos. Aí nós estamos pensando em organizar um encontro com todos os amigos em comum da nossa "época de ouro" da TV-Universitária e do Grupo Expressão de teatro amador. Vai ser uma ótima oportunidade para rever os amigos e relembrar aquele período tão produtivo em nossas vidas.



Escrito por José de Castro às 19h37
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POEMA

VOCÊ PODE SER TUDO

 

De repente a vida

não é uma tristeza só.

Ela também pode ser uma alegria.

 

Veja que tudo tem dois lados:

a escuridão justifica

o brilho da luz

e a emoção do retorno

já se desenha na partida.

 

Você pode ser tudo:

barco, rio, remo,

rede, peixe ou pescador.

 

Você pode criar o destino:

ser velho,

fazer-se moço

ou se transformar em menino.

 

De repente a vida

não é assim tão pequena.

 

Olha que o vento

sopra em toda a direção.

 

Feche os olhos

e sinta a vida com o coração.

 

De repente a vida

é uma enorme surpresa:

o efêmero pode ser eterno

e você pode ser tudo.

 

Sim, você pode ser tudo.

 

(José de Castro, inédito)

 



Escrito por José de Castro às 13h50
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